segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Simples.




Rodopiava ao som de um fá maior!
Seu sorriso inundava o coraçãozinho dos menininhos que andavam descalços na rua. Andava como se dançasse com as nuvens. A vidinha simples lhe era suficiente, o cheiro do café passado todas as manhãs compensava o frio que havia ali.
Todo o dia passava na frente de um violonista que lhe encantara tocando ritmos latinos, naquelas tardes vazias que parecem intermináveis.
Trabalhava numa lojinha de bugigangas que não a fazia feliz, com um misero salário, que não podia comprar os vestidos floridos das lojas, mas que pelo menos a sustentava, e podia pagar o aluguel do seu quartinho.
Ela não sabia o que queria. Quando criança pensava em ser veterinária, para cuidar dos seus gatos, mas os anos passaram, e eles morreram junto com os sonhos que foram murchando.  Agora pensa que nasceu para nada, viver de beira em beira por aí, na sua rotina.
Às 18:30 pega seu ônibus lotado para chegar às 20 no seu quartinho alugado no fundo da casa da Dona Flô. Comia qualquer coisa que servisse, tomava seu banho, via a novela das 9, e logo após ia se deitar em meio a pensamentos até adormecer.
Acordava de manhãzinha e repetia o que fazia todos os dias. Passava o seu café, sentia o cheiro...
E lá estava ela. Pegando seu ônibus lotado, sendo mais um rosto na multidão, desses que não notamos. Com seus desejos, alegrias, infelicidades.
Os menininhos descalços na rua esperando seu sorriso.
  - O som do violão!
E a felicidade momentânea passava por ali.

domingo, 6 de outubro de 2013

Vontades.






A minha vontade é maior que meu corpo.
Me consome por inteiro e toma conta do meu ser.
Me agrega, me estupra, já não sou eu mais.
São migalhas da minha confusão.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sem vírgula.


A cerveja gelada me arrepia nos desejos que me consomem todos os dias da lágrima que não cai e molha meu coração. O vento que corta meu rosto arrastando meus cabelos quase me despedaçando dos pensamentos que não saem da minha cabeça que gruda e avança no meu corpo inteiro. Não entendo essa irracionalidade que surgiu de um momento através das escadas que formaram um sorriso meio sem graça da cachaça mal consumida. Uma conversa não terminada apenas no infinito dos seus olhos que hipnotizam das pupilas mal dilatadas que refletem minha imagem e o Sol quente que nos queima. A fome me consome nessa madrugada de insônia ouvindo poesia. Me atiro nas nuvens na grama no mar na Lua sozinha esperando Godot. A vergonha dos meus defeitos me sufoca me engana me mancha de sangue. A vaidade enraivece dessa ditadura empobrecida que nos afunda e irrita caindo num mau humor não necessário. Sinto as faíscas da minha pele cinzenta sair pelos poros envergonho-me. Paro me olho me escuto e só vem você não sei o que me é possível. Descabelada docemente sorrio e estendo minhas mãos que querem se retrair mas você não deixa. Já está tarde e cansei de devaneios de semanas à tarde numa rua comprida olhando os rostos a procura do seu. Agora vou dormir e acordar para um dia diferente sem você não quero mais nem nunca quis apenas aconteceu.
Adeus.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Entre minhas pernas.




Toda noite meus passos me levam para a sarjeta. A batucada do samba irradia em mim uma certa alegria passageira. Ao amanhecer, meu cheiro é de álcool misturado com corpos desconhecidos.
Encontro minha colega de trabalho, e juntas vamos a espelunca onde moramos, que a noite nos proporciona tesão, dinheiro, e um tanto de infelicidade.
As ruas viraram minhas confidentes, sempre cheias de amantes de todos os tipos. Asquerosamente passo por eles.
O frio passa pelas minhas pernas descobertas, que finjo não sentir, mas a sensação gelada finca até a alma.
Escuto risos falsos nessas noites tão vazias, e penso como posso fazer parte disso, de todo esse prazer precário, onde nem toda necessidade é suprimida, nem mesmo  nos meus devaneios.
Solto minhas teias como se fosse uma aranha prestes a atacar. Engulo a seco minhas moscas.
Suspiros, respiração, gemidos. Apenas ri, peguei meu dinheiro, e o deixei partir, assim como todos se vão. Não prometo amor em meio a minha luxúria.
Meu samba está no final, o Sol está nascendo.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Medusa.



Sou uma medusa. Literalmente, Medusa.
Sou horrenda, dou choques, sou bela, transformo em pedra.
Toco o oco que existe na camada que protege meus órgãos.
Vivo a confusão das águas do mar, e da conturbação das águas que existe dentro de mim, e rodopiam em volta dos meus órgãos. Meu fígado, morto, pede por socorro.
Transmuto dia após dia, num balé acrobático onde só eu sou o público.
Pulso nessa madrugada mais ou menos quente,  sentindo a vibração do meu corpo com o universo.
Sou eu. Eu incessante, em minhas crises existenciais que nunca tem fim. Sou eu, o eu que sempre vai pela esquerda. O eu que quer mudanças, e é a própria mudança em constante movimento.
Sou o tempo. O tempo que percorre em seus pensamentos oriundos. O tempo que transborda vida e morte.  A insegurança dos dias...
Precisa haver tolerância para esse mar turvo. Me afogo nas ondas mantendo minha calma. O tempo passa em meus olhos aguados com um pingo de esperança.
Mergulho profundamente num desespero que não transparece.
Somos a confusão de todos os dias.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sem terminar.


O orvalho molhou uma ponta do meu corpo, o gosto do vinho misturou-se com o cheiro de sangue que caia lentamente dos corpos ao meu lado.
Prepotências distantes, passageiros e de nascença. A bosta sai da boca, enchendo a cidade de merda, hipocrisia e farsas.
Me sinto livre vendo esses corpos mortos, distantes dos meus dias de pinga com figuinho, e de verdadeiras vontades.
O doce parecia bom, até sentir o gosto estragado , e o azedume que exalava, saindo intimamente do onírico.
Qual é o teu refúgio?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Te n(ego)


O ego ferido, doido, se transfigura na fúria que dilacera o corpo. O berro silencioso ecoa na alma sozinha, dessa carência mal aceita, tornando o orgulho sua armadura mais dura enquanto chora escondido sem cair uma lágrima.
As palavras ásperas só mostra sua enorme sensibilidade  e solidão.
Te pego no colo, te dou um sorriso, posso segurar suas mãos. Mas se ame, se namore, esteja em paz, sinta o cheiro das coisas. Não se martirize eternamente, nem faça alguém sofrer, por um egocentrismo que te leva ao precipício, e quando você menos notar, sua vida já passou, e seu único companheiro, será seu espelho convexo.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Rotina.




Desde o meu primeiro suspiro, meu primeiro passo, meu primeiro beijo, levo tudo junto a mim. Desde as impressões e sentidos de cada lugar, cada alguém. A cada vento deixo-me também. Pulmão, fígado, coração.
Passo pelos mesmos lugares quase todos os dias, o som da flauta me invade tão docemente quanto a ela. Todos aqueles  rostos diferentes que me acompanham todos os dias por questão de segundos.
Os dias passam tão rapidamente... e várias tatuagens vão se formando no meu corpo. O gosto da cerveja quente daquele bar preto, a música esquecida, de mais um dia fútil que passa por mim, e as conversas tolas numa escada qualquer.
A dança está nos envolvendo em um certo momento. Tic-tac... sorrisos. Tic-tac... amor. Tic-tac… tem alguém brigando na rua. Tic-tac… festa!
Minhas marcas vão ficando cada dia mais profundas com o tempo, fincando-se pelos caminhos percorridos, transbordando pelas árvores da pracinha que tanto gosto, pelas palavras ingeridas no jantar, pelo toque gentilmente sentido, e espalhando pelos corpos próximos a mim.
Tic-tac... vida.